A PESQUISA QUALITATIVA E SEUS FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS

Publicado: 26/12/2012 em Sem categoria

CHIZZOTTI, A. Pesquisa qualitativa em ciências humanas e sociais. 3ª edição. Petrópolis, RJ: Vozes 2010.

Síntese Cap. 2 – A pesquisa qualitativa e seus fundamentos filosóficos.

Autor: Mestrando Paulo Henrique Corrêa Brum

Disciplina: Metodologia da Pesquisa em Administração

Professor: Dr. Cênio Back Weyh

Mestrado em Gestão Estratégica das Organizações

Universidade Regional Integrada – URI Santo Ângel/RS

A França e a Inglaterra nos séculos XVII e XVIII através de suas revoluções no campo social, político, econômico e cultural consolidam o capitalismo no mundo e tornam-se exemplos deste sistema no mundo. A partir da segunda metade do século XVIII crises financeiras profundas decorrentes destas revoluções na França apontam profundas modificações na política na economia e na cultura fomentando idéias e movimentos sociais em todo mundo.

Uma nova economia mundial começa a dar seus primeiros passos, com novas concepções políticas e a eclosão de críticas as teorias absolutistas de ainda influenciavam o pensamento vigente. Razão, vontade e liberdade estavam sendo anotadas cada vez mais na pauta das novas discussões que tomavam conta dos “tempos novos” ou “modernos” que começavam a soprar. Era o caminho de uma sociedade mais ampla para uma mais complexa.

Grandes figuras do pensamento filosófico começam a tecer severas críticas as formalidades das idéias escolásticas e dão inicio a instalação de suas novas teorias através dos discursos que surgiam. Entre estes nomes surgem: Francis Bacon, René Descartes, Galileu Galilei e Isaac Newton.

Com um grande projeto que contesta a lógica de Aristóteles, Bacon reduzira as coisas concretas a dez categorias vazias e às noções abstratas da matéria e forma. Afirmou que a nova ciência não era mera especulação, mas a ciência da invenção e dos meios de descobrir suas leis e aplicar suas descobertas contemplando a prática do dia-a-dia da vida. Propõe uma lógica indutiva que parta da experiência, descreve processos e cria um método de verificação.

Colocando em dúvida todos os conhecimentos que eram vigentes na época, um dos maiores pensadores e influenciadores da História do Pensamento, René Descartes, abandona o formalismo lógico da escolástica por não encontrar a certeza que a física e a lógica matemática lhe asseguravam. Fez uma análise crítica do conhecimento e separou a razão que conhece e o mundo que é conhecido. Contribui de forma cabal para um novo modo de conhecimento. Cria o método “compositivo-resolutivo” que reduz os fenômenos observados a uma fórmula quantificada e, depois, deduz de uma lei geral os fatos que a compõem.

Considerado por muitos como o “pai da ciência moderna”, Galileu Galilei segue a crítica a física aristotélica e geocentrismo ptolomaico, depois confronta a cosmologia copernicana e ptolomaica e depois se dedica a observar os corpos celestes em um sistema coeso. Discutem sobre duas novas ciências que abordam a coesão da matéria, a ciência do movimento, a resistência dos materiais as bases matemáticas da mecânica.

Causador de um impacto muito grande na ciência nascente dos tempos modernos, Sir Isaac Newton rompe paradigmas com suas três leis que fundamentam a mecânica clássica. Seu método de investigação é baseado na comprovação experimental, calcado em pressupostos cartesianos. Esta orientação filosófica e a sua significação para a pesquisa constituem um marco importante na pesquisa experimental.

Dando forma ao contexto de correntes do pensamento que influenciavam o globo a partir do século XVIII e, de certa forma, com teorias diferentes da hegemonia da razão adotadas pelos filósofos e cientistas acima mencionados, o “Empirismo” surge e marca lugar neste cenário. Para os empiristas, a fone principal do conhecimento é a experiência externa que provem do contato imediato de um sujeito como um objeto sensível que é exterior a esse sujeito. Por isso, a rejeição a teorias inatas platônicas e ao racionalismo cartesiano que norteara alguns princípios.

Procurando estabelecer novos horizontes para o conhecimento, Kant e Hegel surgem na Alemanha com o Idealismo. Kant critica o empirismo e ceticismo de Hume, firmando que conhecimento não se restringe à mera percepção passiva de objetos externos, mas pressupõe a atividade imprescindível da mente no processo de conhecer. Novos elementos surgem com a assertiva idealista que a razão é um “concreto universal”, ao mesmo tempo comum a todos e diferenciado em infinitos espíritos particulares. Foi aberto um novo caminho para diferentes epistemologias com a percepção idealista na modernidade tendo como base o resultado dos vários rumos apontados pelo desdobramento do espírito.

A discussão em torno de metodologias da ciência em geral adentra o século XIX e torna-se um movimento denso de idéias em torno da filosofia da história, pretendendo compreender o processo histórico como um todo. Kant, Hegel e Marx procuram interpretar a história como um todo Inteligível e não somente como um uma sucessão de acontecimentos empíricos.

Neste contexto surgem fortes oposições as idéias sobre os fenômenos históricos por parte de um grupo de historiadores que formaram a chamada “escola realista” alemã, que buscava um objetivismo dos fatos “como realmente aconteceram”, tratando-os por meio de critérios objetivos, independentes de qualquer juízo do historiador, para se constituir em uma “ciência”.

A questão em um método próprio das ciências humanas provocou ampla polêmica no final do século XIX envolvendo vários cientistas de diferentes áreas como a filosofia, a história, a sociologia, economia e as ciências da natureza, entre eles Max Weber. Teorias e formulações de leis de mercado surgiam com a nova realidade econômica. Entretanto, o debate não fica somente focado na economia, a escola histórica entra firme na discussão considerando a relação dinâmica dos fatos sociais com as condições de cada época.

Acompanhando todo este processo, o alemão Wilhelm Dilthey opõem-se a redução do mundo histórico e das experiências vividas a um esquema causal e determinista, próprio das ciências da natureza, investiga e fundamenta a validade das “ciências do espírito”. Distingue as ciências naturais orgânicas e mecânicas ou físico-químicas, que procuras as relações causais explicativas dos fenômenos, e as ciências humano-históricas que buscam a compreensão interna dos fatos, interpretando os significados dos eventos. Dilthey introduz o tema da “experiência vivida”, que explora a relações dinâmicas que acontecem entre indivíduos.

Esta corrente filosófica faz surgir o historicismo ou historismo, que tinha por base a compreensão e avaliação dos eventos humanos juntamente com os valores humanos e sua cultura, construindo uma visão de mundo moderno.

A antropologia e a sociologia surgem buscando reflexões a cerca do entendimento global dos sistemas e fatos sociais. Neste ínterim da historia, as ciências avançam com métodos e técnicas mais e mais elaboradas para a busca da compreensão da vida social em todas as direções do pensamento no final do século XIX e início do século XX nos campos da pesquisa filosófica, histórica, sociológica e antropológica. Três temas fundamentais polarizaram a investigação moderna: a natureza, o sujeito e a história.

Marcada por tensões teóricas a evolução da pesquisa qualitativa se distancia de teorias praticas e estratégias únicas de pesquisa. Apesar destes fatos, muitos autores esboçam atualmente suas sínteses e inovações sobre a pesquisa qualitativa. Na presente obra são estabelecidos cinco marcos que sintetizam as novas contribuições e ampliam o campo da pesquisa qualitativa, são eles:

O primeiro marco remonta as raízes mais remotas dos debates sobre o mundo vivido, associado ao romantismo e ao idealismo, reivindicando uma metodologia autônoma ou compreensiva para as coisas do mundo. Descreve o cenário desenhado pelo mundo precário dos trabalhadores urbanos e rurais e suas mazelas, expostos por Engels e Le Play. Inspira-se também no evolucionismo de Darwin e Spencer buscando as raízes da vida humana. Sem deixar Comte na sua proposição positivista na adoção do método “comparativo” para estudo das diversidades sociais e culturais.

Um segundo marco, já na metade do século XX, é impulsionado pelos estudos sócio-culturais onde a antropologia e etnografia figuram consolidam-se como novos campos de investigação científica. A pesquisa começa a profissionalizar-se e a “vida do outro” entra nas análises e observações científicas. A Escola de Chicago cria um método interpretativo realista a partir das narrativas orais da história de vida cotidiana das pessoas comuns. A pesquisa assume uma posição empática com o ambiente.

Entre o pós-II Guerra até os anos 70, fase que anota o terceiro marco, é a fase áurea da pesquisa qualitativa, reelaboram-se conceitos de objetividade, validade e fidedignidade em conseqüência pode-se captar uma descrição provisória ou mais verossímil da realidade. Surgem novas concepções práticas vindas da fenomenologia, da hermenêutica, do marxismo e das teorias críticas neomarxistas trazendo novos problemas de estudo. O debate qualitativo versus quantitativo revigora e as críticas a outros modelos de pesquisa e metodologias também. Reconhece-se a relevância do sujeito, dos valores e as intenções assim como a interdependência entre a teoria e a prática.

Os pesquisadores qualitativos contestam a neutralidade científica do discurso positivista e afirmam a vinculação da investigação com os problemas ético-sociais e comprometem-se com prática, e emancipação humana e transformação social. A pesquisa expande-se neste período, criam-se institutos e centros de pesquisas em torno várias áreas do conhecimento ou temas específicos, incrementando em muito a pesquisa científica.

O quarto marco desenvolve-se nas na década entre os anos 70 e 80. Expandem-se os recursos e o desenvolvimento da pesquisa, das equipes e os centros de pesquisa universitários e institucionais, derivando em quebra de paradigmas e uma mudança de visão sobre a natureza da pesquisa e sua contribuição para a política e a prática. As pesquisas desvinculam-se dos referenciais positivisticos e tendem para um estudo de questões delimitadas. Surge uma união transdisciplinar das ciências humanas e sociais. Os textos buscam diversos gêneros literários, práticas, contos, relatos e outros meios para expor seus significados. Surge a teoria quântica.

A partir da década de 90 estabelece-se o quinto marco com a chegada do neoliberalismo e caminhada para a globalização com o surgimento da “sociedade do conhecimento” e fim das “ideologias”. O consumo gerado pelo capitalismo e as novas tecnologias aguçam o vigor analítico das teorias criticas denunciando as desigualdades sociais marcadas pela nova realidade circundante. A discussão atual e futura fica aquecida pela gama de questões teórico-metodológicas abertas pelos pesquisadores qualitativos em ciências humanas e sociais.

Concluindo este capitulo, o século XX foi de suma importância para pesquisa em ciências humanas e sociais, grandes descobertas teóricas, a expansão da atividade e a difusão dos conhecimentos. A organização das várias áreas do conhecimento e o crescimento dos pesquisadores profissionais proporcionou aumento significativo na difusão das descobertas por vários meios midiáticos. A tendência é o crescimento da atividade de pesquisa como uma prática social relevante. Várias discussões e problemas futuros continuarão a provocar os pesquisadores. A consciência e o compromisso de que a pesquisa é uma prática válida e necessária para a construção solidária da vida social está numa rota crescente. Aos pesquisadores que não se furtam ao rigor e objetividade da pesquisa qualitativa e se decidirem pela descoberta de novas vias investigativas atestem que a experiência humana não pode ficar restrita a métodos nomotéticos de analisá-la e descrevê-la.

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